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30/04/14

Não implorar o amor

Ensinaste-me a não implorar o amor
A viver mais devagar, como se valesse a pena
A acreditar no tempo como uma coisa serena
Que tudo resolve e engrandece , que tudo amena

Ensinaste-me a não implorar o amor
A cada dia que passa, aceitar a solidão
Como coisa passageira mas que é preciso passar
Como uma dor que conforta e ensina a não chorar
Pensava eu que me ensinavas a esperar

Mas tu só me ensinavas a não implorar o amor
A calar a cada noite a minha dor
A aceitar o teu tempo e todas as razões
A devolver o abraço depois das discussões
A transformar em riso todas as desilusões

Ensinaste-me a não implorar o amor
Nem a implorar nada
A não viver as festas nem os carnavais
A não ligar aos amigos nem aos natais
A esperar a passagem dos vendavais


Ensinaste-me no fundo a não te querer mais.


23/03/14

18/01/14

A escolha que nunca fiz

Às vezes temos consciência que nem todas as coisas estão nas nossas mãos
E nas mãos de quem estão, não há consciência do tamanho do todo.

O resto, fará parte do grande plano do Universo que nunca compreenderemos.
Nem sempre as nossas escolhas são completamente feitas por nós, mas sim por algo inodoro e incolor, sem paladar nem som, algo que nos habita e que nunca viremos a conhecer, mas somos nós...

Às vezes não temos consciência que o tempo não é infinito, não o nosso tempo; mas comporta-mo-nos como se fosse.

E um dia aprenderemos isso, de uma forma ou de outra, porque o tempo finda no fim de cada coisa e não avisa.

Olharemos para trás e daremos conta que - um dia tivemos consciência que nem todas as nossas escolhas estavam na nossa mão e as que estavam não as fizemos...
Num passar de tempo, lembrar-nos-emos como olhámos a nossa mão e ela estava vazia e saberemos, como soubemos na altura, que a escolha que fizemos não era a nossa mas aquela que fomos forçados, pela a vida, a fazer.

O Tempo é cruel ou generoso, dependendo da taça em que é servido.
É uma água que faz sede, é despertar sem aviso...
Podemos fingir por algum tempo, que o tempo não nos importa
Que o longe se faz perto, que quem espera sempre alcança, que a esperança nunca é morta...

Mas um dia teremos consciência que temos uma essência de Ser,
e que quando somos apartados dela e quando fingimos não a ter
Vem o tempo, cedo ou tarde, mostrar-nos que quando escondemos a nossa forma de ver, vem o Universo e corta vagarosamente a possibilidade que tínhamos de escolher.


26/12/13

Presente envenenado

Ó tempo que custas passar
Ó dia que teimas em chover
devolve-me a história que eu tinha
aquela de outrora, que fiz por merecer.

De branco e de negro como tu me vês
Sem saber que sou a rainha das cores
Condenas-me como mataram Inês
chamada de Castro, rainha das dores

E Inês não sou ou seria rainha
eu sou o inimigo do presente
Que não tem futuro, se não há passado
eu sou um presente transparente

Amarras-me as mãos e cortas-me os pés
e enches-me a boca de pétalas de flor
para quem já caminhou, como eu, de lés-a-lés
só consegues parar-me em nome do Amor

Ó quimera seca por onde enveredei...
Ó fantasia oca em que acreditei...
Eu não sou futuro, eu não sou passado,
eu sou o presente envenenado!


Palavras pisadas

Era negro o dia que amanheceu
numa força inerte, trazida do antes
todas as palavras caíram no chão
e, molhadas, pisei-as para não as dizer
mas disse.
Porque aquilo que não é ouvido
é como se nunca se tivesse pronunciado
e, nesse caso, repetir não é voltar a dizer
fica apenas um redizer pela primeira vez
na esperança que as palavras não se molhem
não caiam no chão e não se pisem
as palavras pisadas não têm razão de ser
nunca foram ouvidas e não vão acontecer

Nos lençóis quentes, tantas vezes navegados
as palavras não ditas foram ouvidas, se calhar
e porque as palavras não ditas não podem ser pisadas
calámos.
Era branca a noite que entardeceu
e as palavras ditas esqueci, esqueceste
num dia diferente vivido em penumbra
era doce o vinho que do meu peito sorveste
e terno era o colo onde te embalei
tão forte esse teu braço que não me deixa sair
tão grande, meu amor, esta vontade de ficar
secámos as palavras pisadas, e em surdina
ouvi-te dizer - Não consigo ir... e pensei - talvez amar...






01/12/13

Os muros

Sempre que choro de preocupação por alguém
percebo que amo. 
Não só aquela lamechiçe feita de carinhos e ternuras, 
mas aquela coisa forte e afiada, 
que nos corta a garganta, nos estilhaça o coração,
que nos mostra de frente que não valemos nada
nos encosta à parede e nos passa por cima
e que apesar da impotência para ajudarmos
não nos impede de chorar
não nos impede de acordar
não nos impede de amar
da forma mais crua que temos p'ra dar.

Mas quando os muros, altaneiros,
são feitos por ti e para ti
engulo em seco e sinto a garganta a gelar
nada do que diga, vale a pena...
nem nada do que sou, sou tão pequena

A quem não quer ouvir, não adianta falar
ninguém obriga ninguém a amar!



24/11/13

A tua mão

A tua mão na minha, quente
É a única confirmação que preciso
E a dor que passa ao lado, rente
É talvez a vida, é talvez aviso

E ouvir as folhas debaixo dos pés
Num chão já pisado, tantas vezes
É a melodia que nos acompanha
Já lá vão dois anos e uns meses

Quando a noite fria é passada junta
Ela, num repente... aquece
Tua pele doce reconhece a minha
Entra no meu corpo... adormece

Não sei do que falam quando se referem à felicidade
É talvez um mito, a procura intensa, a mentira numa verdade
Sei que a tua mão quando encontra a minha, no meu mundo, tudo se acende
Sei que a vida é dura, que o amor é lento, que se erra e pouco se aprende

Da felicidade já ouvi falar, dizem que nos salva de um perigo
Que se esconde e espreita, mas não tenho medo... contigo.
Não sei do que falam, mas sei que quando me dás a mão de verdade
Sobe-me uma coisa, que confirma tudo, e só pode ser felicidade.




06/10/13

O melhor caminho do mundo é o que percorro contigo
Onde agora, vou andando sozinha...


Pretérito Imperfeito

Não queria ser o prémio de alguém que não jogou
Que nunca antes me amou na forma perfeita do ser
Do sempre ao nunca mais, vai um tempo imperfeito
com contornos escuros feitos de nós no peito

Vou ser o bilhete de uma lotaria que saiu
o cartão que não foi escolhido nem achado
nem vendido nem sequer rasgado
Vou ser o bilhete de que se desistiu

Vou ser um pretérito errado do que podia ter sido
Eu seria, eu teria, eu faria, eu queria
Eu sabia... eu sabia
Não serei um pretérito qualquer
Como qualquer mulher
Que viveu a vida e a viu passar

não

Eu serei a possibilidade toda jogada no chão
Deitada de costas e sem coração
Abraçando a saudade do que poderia ter sido
Se não fosse quem sou, se não fosse perdido
O bilhete com prémio que ninguém mais quis
A planta arrancada antes de criar raiz
A criança abortada que nasceu infeliz
Um pretérito inteiro só à espera de Ser
Imperfeito e sozinho mas cheio de razão
Um prémio jogado no lixo, pisado no chão.

Há um olhar que baixa quando não se sabe nada
Há um corpo que derrete dentro de toda a dor
De que serve um bilhete premiado...
Se não há vencedor?








17/09/13

As palavras todas

Eu quero as tuas palavras todas.
Não deixes nada por dizer ou por fazer
Nenhum sítio onde ir, nem nada por acontecer.

Quero as tuas palavras todas logo pela manhã

Ainda na cama quente, a respirar devagar
Recorda-las docemente, quero palavras p'ra lembrar.

Eu quero todas as palavras que tens para me dizer.

Para me deitar com elas, nesta cama sumarenta
Tenta dizê-las baixinho, meu coração aguenta.

Diz-me coisas, novidades

Diz-me mentiras, verdades
Diz as cores todas que sabes
E o alfabeto ao contrário.

Fala de Reis e de gentes

E do que te faz feliz
Fala-me do mundo inteiro
Diz coisas, quando sorris

Diz-me essas palavras todas

Não te cales, não te acanhes
Não tenhas medo e sente.
Chora-as baixinho comigo
Diz-mas todas docemente.

Deita fora essas palavras

Quero-as todas, só para mim
Para quando te calares
Eu saber, seguramente
Que é o fim...



15/09/13

O peso do Tempo

O peso do tempo só se sente quando um novo tempo surge
e de repente, o tempo urge e de repente o amor é breve
e porque é cego, o amor, não entende
que é de dor que se alimenta e escorrega
como quem sobe uma serra com vontade de a descer.

E é assim que o novo tempo ama o gasto amor, que vendado não percebe
que o amado não é mais do que uma pena, que vista do lado de cá
parece algo bom que surge, algo lento, forte e profundo
sem saber que do outro lado, o que ele vê é um mundo
que pode ter sido belo, um dia, num tempo, em que há muito tempo
os relógios davam horas ao amor que se fazia.

Mas hoje tudo mudou
O que antes era jovem anoitece devagar,
amortece cada queda com a ternura de um olhar
sabendo que cada beijo não é perdido, mas ganho
entendendo no silêncio do recente novo amor,a leveza tão pesada
da subtil despedida ,que calada castra rente aquele que cansado, sente
o amor, que como o tempo, nos corre entre os dedos longos
nos corre na fantasia.

Rasga veias, abre crateras, formando um quadro de escombros
Onde o velho amor se deita sabendo que vai morrer.
Ninguém entende porque sorri e porque fica parado
num quadro quente e quieto onde o branco fica preto
e onde o tempo irrequieto não abranda nem perdoa.

Porque se deixa trespassar por esse novo amor inteiro
que não passa de uma brisa ou de um tiro de morteiro?
Que não abre o compromisso nem sequer lhe fecha a porta,
fazendo do cheiro a cama
a cama que nos suporta.

Porque é que não se desvia da dor que sabe que vem?
Porque é que avança tão firme junto à berma do penhasco?
E porque é que sobe à árvore sabendo que vai cair?

É que há uma coisa estranha que é mais forte do que o medo,
é uma esperança tamanha e uma dúvida do tempo,
um baque, que parece um batimento
porque o gasto amor já sabe, que pior que morrer por desprezo ou desamor
é penar eternamente pelo que não se tentou
é morrer em silêncio inerte, de arrependimento
E é melhor morrer de amor, do que quem nunca amou.

Venha o tempo venha o espaço!
Venha a noite acusar-me de ser vã!
Vou amar eternamente...
Nem que seja só até amanhã!















03/09/13

Celebrar o amor
é Amar

Quando um anjo tira tempo
para te reconhecer
para te despir e depois
para te lamber
Abraça-o.

Quando um anjo vem a casa sem avisar
Beija-o e deixa-o sentir
faz com que te percorra inteira
E no final abre a porta
E deixa-o partir

Quando um anjo te ama
Ele vai voltar
Sussurra palavras ao vento
E lambe... Lambe o ar.

Celebrar o amor
é Amar




Gota a gota

É ás gotas que me sustento
gota a gota me alimento
A sede não esgota, a palavra não vem
A faca não corta, a saia não roda
Não estando cá tu
Não está cá ninguém

E gota a gota mato a minha sede
Como um pulsar lento, do coração que não morre
Como olhar de frente, um olhar que não sobe
E a sede não passa, não abranda a fome
A porta não abre, a nódoa não sai
Não há um caminho por onde se vai

Vai vir a saudade, vai passar o verão
Vai gelar o dia no meu coração
Vai faltar a água, p'ra a gota cair
Vou fechar a boca
Vais parar de vir

É então às gotas que eu me sustento
Ás saudades lentas, que vêm e vão
Ao cheiro dos olhos, ao sabor da mão
À memória leve de ser tua, um dia
Gota a gota fresca, na boca sadia

E agora seca do que te dizer
Fecho os olhos d' água, p'ra gota morrer
Deixo de ter gotas para me entreter
Respeito os traços que fazes no chão
Escolhes o caminho fácil do esquecer
Toma, leva e espreme o meu coração

gota a gota, fá-lo padecer...





Ouvindo. Ouvir.



28/08/13

Percebi há muito tempo que é dentro que estamos 
Mas quando nos perdemos é longe que nos encontramos.

27/08/13

Tudo é para rasgar

A dor é uma coisa para ser sentida
Para ser chorada e reencontrada
Uma coisa para ser calada, para ser falada
Para ser rasgada e para ser amada!

O amor é um sentido, para ser lambido
Para ser perdido e ser encontrado
P'ra ser repetido e repetido e repetido
Para ser fodido, para ser rasgado!

A alma é o que temos dentro, é para ser mostrada
Para ser esfaqueada, para ser amada
Para ser o todo que temos para dar
E a alma também é para rasgar!

O corpo é o que temos fora, o que nos transporta
Serve para abrir caminho ou p'ra fechar a porta
Para ser nascido, vivido, enterrado
Todo o corpo é para ser rasgado!

A saudade é o que fica quando não há mais nada
Depois da colheita feita, depois da terra lavrada
A saudade cheira a cinzas e cheira a relva molhada
Cheira a papeis antigos, cheira a vela apagada
A saudade é um rasgo... que não serve para nada...





25/08/13

As memórias de nós

As memórias de nós
Vão ser colocadas numa caixa verde escura
Enviadas para parte incerta do universo
E lá vão permanecer intactas, enquanto a vida dura

Há um sítio onde as memórias extraordinárias são guardadas
Um lugar silencioso, calmo e cruel
Onde ninguém pode ir, de onde ninguém sai
Onde a vida sabe a dor, sabe a mar e sabe a mel

E as memórias de nós, é para lá que elas vão
Cada uma estará colada a um som tão especial
Quando a dor de não lembrar, esvaziar teu coração
Não há ninguém, não há dor ou doença que as apague
Não há mal que venha ao mundo pior do que não lembrar
Não há vida para a frente, não há vida para trás
Não há nada que remende o bem que a vida nos faz

As memórias de nós 
Estão guardadas numa caixa verde mar
Apoiadas numa onda, suspensas no Universo
Sem eu nunca me esquecer, que nunca me vais lembrar











24/08/13

Simplesmente

Simplesmente Amo-te

Simplesmente Amas-me

Perante isso, as vicissitudes da vida são nada
A distância é um risco, entre um ponto e outro
Um risco que se percorre silenciosamente
Onde a tua pele da minha, não é separada

Simplesmente Amas-me

Simplesmente Amo-te








19/08/13

Apaixonei-me por todas as tuas falhas
Aconcheguei-te e adormeceste-me nos braços.

A minha falha foi apaixonar-me para sempre
Por todas as tuas falhas.

Aguardo suavemente que acordes e repares
Que sou, hoje, uma das tuas falhas.

17/08/13

Quando pensava que nunca mais te ia respirar
Inalo-te!
Ofereces-me palavras como se fossem flores amarelas
Aceito-as!
Aceito as tuas palavras como se fossem as minhas
reescrevo-as!

Falas como quem abraça e é no silêncio que me dizes tudo
Cala-te!
É na distância que nos incendiamos, hoje
Vem!

Trazes os bolsos cheios de pedras
Larga-as!
Trazes as costas cheias de penas
Voa-as!
Trazes as mãos cheias de escamas
Devolve-mas!

Trazes nesses olhos doces tanta ternura
Que ninguém diria que um dia me deixaste

E pensaste que eu nunca mais ia ser tua...